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Rebaixamento pela S&P mostra que manobras não enganam mais ninguém

GUSTAVO PATUDE BRASÍLIA
Quando surgiram as primeiras indicações de que a classificação de risco do país poderia ser rebaixada, já era tarde para mudanças nas convicções do governo Dilma Rousseff e na orientação da política econômica.
Em 6 de junho do ano passado, data da primeira ameaça da agência S&P (Standard & Poor's), a escalada de gastos federais e estaduais já estava contratada até o fim do mandato da presidente.
Também já estavam sepultadas, na época, as esperanças de uma retomada do crescimento da economia forte o bastante para acelerar a arrecadação de impostos e equilibrar as contas públicas.
Restaram manobras e truques para, com eficácia cada vez menor, antecipar ou superestimar receitas e subestimar ou protelar despesas, na tentativa de embelezar as estatísticas oficiais.
Ainda ontem, instantes antes do rebaixamento da nota brasileira, a área econômica havia divulgado um providencial aumento de R$ 4,2 bilhões na já otimista projeção de receita para o ano --o valor quase exato para acomodar a despesa extra com o subsídio da conta de luz anunciada neste mês.
A nota divulgada pela S&P mostrou como artifícios do gênero não enganam mais ninguém de fora da Esplanada dos Ministérios.
A agência lista a série de expedientes heterodoxos adotados nos últimos anos e, como todo o mercado, afirma não crer no cumprimento da meta fiscal do ano.
Mais importante, apontam-se dúvidas com relação à disposição do próximo governo de fazer o inevitável aperto a partir de 2015 --e nas entrelinhas está a incerteza eleitoral deste ano.
INCERTEZAS
"Há incerteza quanto ao tamanho e ao alcance" do ajuste esperado, diz o texto da agência de classificação.
Favorita na eleição, Dilma já mostrou acreditar que sua política fiscal é dura o bastante para um cenário de crescimento econômico frágil.
Não por acaso, ela recusou a única possibilidade à disposição para um corte mais agudo de gastos neste ano: reduzir as verbas da educação, que no Orçamento superam em R$ 25 bilhões o mínimo obrigatório.
As demais despesas principais são permanentes e incomprimíveis, casos de salários, benefícios previdenciários e assistenciais, subsídios do Minha Casa, Minha Vida e da energia elétrica --os dois últimos podem ser, no máximo, adiados, piorando as perspectivas para o futuro.