Previdência e fundos ganham destaque

Por Felipe Datt | Para o Valor, de São Paulo
O cenário de taxa de juros em queda, que vigorou até o fim de 2012, fez com que os ativos de renda fixa perdessem participação no portfólio de investimentos dos milionários brasileiros. Embora os investimentos diretos em títulos e valores mobiliários ainda representem um dos pilares da indústria private, abocanhando, em 2013, 45,3% das aplicações - 30,9%, dos quais, em renda fixa -, a busca por maior liquidez fez com que esses instrumentos perdessem espaço, nos últimos anos, para aplicações em fundos de investimento.
Essa dança foi captada pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), que mostra que o crescimento de 11,8% nas aplicações em fundos, em 2013, sobre o ano anterior, levou o volume desses ativos a superar, pela primeira vez desde o início da série histórica, há cinco anos, os recursos alocados diretamente em títulos e valores mobiliários, que cresceram apenas 4,8% no ano passado. Em 2013, os fundos representavam 47,4% dos ativos sob gestão no segmento private, ou R$ 273,4 bilhões, enquanto os títulos e valores mobiliários abocanharam R$ 261,5 bilhões.
"Os juros a 7,25% representaram um marco em que as pessoas saíram da renda fixa em busca de alternativas de rentabilidade. Os fundos ganharam destaque e, desde então, ocupam ininterruptamente mais espaço. Com o juro novamente em patamares altos, a renda fixa começa a brigar com os fundos, mas ainda assim a tendência é de consolidação desses instrumentos, com taxas de administração mais competitivas para maior rentabilidade", diz João Albino Winkelmann, do Comitê de Private Banking da Anbima.
A distribuição por categoria de fundos ajuda a desenhar o perfil do investidor brasileiro. A grande concentração de recursos na categoria multimercados (57%) aponta para um caráter menos conservador dos investidores milionários em relação à média da indústria. Outra tendência que ganhou destaque em 2013 são os fundos que acessam o mercado internacional através de contratação local. Com a baixa rentabilidade dos ativos locais e com economias como a americana e a europeia em recuperação, o mercado externo passou a entrar com força no radar de gestores e investidores.
"A evolução em direção à globalização dos investimentos tem se manifestado com muito mais força nos últimos 18 meses do que tínhamos visto no passado no Brasil", conta o diretor de Private Bank do HSBC, Gabriel Porzecanski. O banco lançou em meados de 2013 dois fundos globais que investem recursos no exterior sem a necessidade de abrir conta no estrangeiro ou efetuar remessa de recursos. Os fundos, de contratação local, já superam R$ 300 milhões de patrimônio oito meses após ou lançamento (ver matéria abaixo).
Na mesma linha, o Bradesco, através de seu braço de asset management, lançou recentemente quatro fundos globais para o investidor superqualificado que pretende acessar ações do mercado global com vistas a diversificar seus investimentos. Os três primeiros apostam em ações de empresas da Europa, Ásia e América Latina e o quarto em um mix de papéis de todas essas regiões. Os fundos têm taxa de administração de 1%. "Permitir o acesso a ativos globais a partir do Brasil é uma tendência nas famílias de fundos, algo que vai ganhar evidência em 2014. Mas é jogo para gente grande, para o investidor que realmente entende de riscos globais e sabe onde está colocando o dinheiro", diz Winkelmann, que também é diretor de private banking do Bradesco.
Outro ativo que ganha destaque no portfólio de investimentos é a previdência aberta. Segundo dados da Anbima, as alocações em previdência passaram de R$ 11,9 bilhões, em 2010, para R$ 37,4 bilhões no ano passado.
Na evolução de recursos por ativo, a previdência aberta registrou o maior crescimento relativo entre todas as classes em 2013, de 34,2%, e já representa 6,5% dos investimentos totais. As razões da popularização passam, primeiramente, pelos benefícios fiscais e tributários. A possibilidade de deduzir o valor das contribuições da base de cálculo do Imposto de Renda, com limite de 12% da renda bruta anual, em planos como PGBL, explicam parte da atratividade.
Outra razão, na opinião da diretora-executiva de gestão de patrimônio do Santander, Maria Eugênia Lopez, é que a previdência é cada vez mais utilizada pelos clientes como um instrumento de planejamento sucessório. Ao contrário de outros investimentos, a previdência não entra em inventário em caso de falecimento do titular, o beneficiário pode ser alterado a qualquer momento e os montantes são liberados tanto em pagamento único quanto de forma parcelada. "Como é um investimento de longo prazo, dá flexibilidade e rentabilidade maior. A recomendação é que o cliente sempre coloque uma parte do seu volume financeiro nesse tipo de produto", finaliza.

 

Investidor se volta ao mercado externo

 

Por Maria Christina Carvalho | Para o Valor, de São Paulo
O bom desempenho das principais bolsas internacionais na esteira da recuperação das economias avançadas esquentou o interesse dos investidores de alta renda pelas aplicações no exterior. As ações subiram mais no exterior do que no Brasil, no ano passado. A Bolsa de Nova York teve alta de 25%; a de Londres, de 14%; e a de Tóquio, nada menos do que 56,7%. Enquanto isso, a Bovespa amargou queda de 15,5%.
As bolsas internacionais estão reagindo aos primeiros sinais de melhoria do desempenho econômico desde a eclosão da crise de 2008. A previsão do Fundo Monetário Internacional (FMI) é que os EUA vão crescer 3,7% neste ano e 3,9% em 2015, depois do módico 1,3% do ano passado. É uma expansão superior à projetada para o Brasil pelo FMI, que está acima do esperado pelos analistas brasileiros e é de 2,3% neste ano e 2,8% em 2015.

 


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O interesse do brasileiro pelo investimento no exterior ganhou fôlego em 2010, com os primeiros sinais de que a crise internacional estava se dissipando. Ele pode ser medido pelo total de investimentos brasileiros em carteira no exterior, dimensionado anualmente pelo Banco Central (BC). Em 2010, o volume atingiu o pico de US$ 38,2 bilhões, 131,5% a mais do que os US$ 16,5 bilhões de 2009.
De lá para cá houve uma ligeira queda, para US$ 28,5 bilhões em 2011 e US$ 22,1 bilhões em 2012. O volume investido em 2013 está sendo apurado pelo BC por meio do censo de capitais brasileiros no exterior. Mas a estimativa dos especialistas é que tenha dobrado para perto de US$ 40 bilhões.
Criado pelas regras da Instrução 465 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), de meados de 2008, esse fundo pode direcionar até 100% da carteira para ativos no exterior. O investidor tem que aplicar no mínimo R$ 1 milhão. Há bancos cuja aplicação mínima é ainda maior. É o caso do Goldman Sachs, que atende quem pode aplicar a partir de R$ 20 milhões; e do Credit Suisse Hedging Griffo, que oferece os fundos exclusivos de investimento no exterior para investidores com a partir de R$ 10 milhões.
O chefe da área de "private wealth management" do Goldman Sachs no Brasil, Fernando Vallada, diz que o brasileiro está mais interessado em investir no exterior não apenas pelos resultados das ações mas pela perspectiva de maior crescimento econômico e pela diversificação de risco geopolítico. O Goldman Sachs oferece investimentos em bolsa nos EUA e Europa, em títulos de alto rendimento ("high yield") e em fundos do próprio banco.
Um desses fundos é o TTP, que busca reunir estratégias de investimento como vender iene e comprar ouro ou comprar ativos da Índia e vender os da África do Sul.
O Credit Suisse Hedging Griffo tem dois produtos para os brasileiros da alta renda interessados em investir no exterior, informou Sylvio Castro, que cuida dos fundos exclusivos do private banking. Um deles investe integralmente em ações. O outro investe dois terços em renda fixa e um terço em renda variável global. É possível ainda aplicar em fundos da plataforma global do Credit Suisse, que administra US$ 1,4 trilhão em recursos de terceiros.
O BNP Paribas tem a linha de fundos Acess para investimento no exterior com quatro alternativas, informou o diretor do private banking Mauro Rached. Um deles é direcionado a ações americanas que vêm subindo acentuadamente, acompanhando a recuperação dos EUA, explicou. O outro, a ações de empresas europeias. Há um fundo que reúne ações globais; e ainda outro, o Global Stars, que investe em fundos de cinco gestores. No ano passado, o fundo de ações americanas rendeu em reais 43,76%; e o fundo de ações globais, 35,83%.
Luiz Sorge, o CEO da asset do BNP Paribas, afirmou que o investidor brasileiro ainda está aprendendo a aplicar no exterior. Do total de R$ 29 bilhões administrados pela asset, R$ 60 milhões estão em fundos no exterior.
O diretor do private banking do HSBC, Gabriel Porzecanski, notou o aumento do interesse dos brasileiros pelos mercados externos no ano passado. Conforme lembrou, em 2011 e 2012 "era muito confortável aplicar em renda fixa no Brasil". Mas o cenário mudou.
O HSBC tem dois fundos em reais para a alta renda, com regras locais e tributação local, que investem no exterior. A aplicação mínima é de R$ 1 milhão. Lançados no ano passado, os fundos já têm R$ 600 milhões investidos.
Um deles é o Dynamic, com 80% em ações e 20% em renda fixa. Do total em ações, 50% são direcionados a mercados avançados; 20% para economias emergentes e cerca de 9% para mercados de fronteira como Vietnã e Nigéria, que têm proporcionado bom retorno, segundo Porzecanski. O outro é o Balanced, com 40% em ações e 60% em renda fixa. A parcela em renda fixa é distribuída em partes iguais entre economias avançadas e emergentes. Da parcela em ações de economias avançadas, metade é direcionada a papéis de empresas americanas e o restante distribuído por países. Há diversificação também por setores.
Para atender os brasileiros do private banking interessados em aplicar no exterior, o Itaú Unibanco conta com operações em Miami, com 160 funcionários, e na Suíça, com 70, informou o diretor da área, Luiz Severiano Ribeiro. Além disso, há quatro especialistas em Nova York para realizar as operações, além de 15 da área de administração de ativos. Dos recursos administrados, 80% são de brasileiros e 20% de hispânicos.
O Itaú Unibanco tem quatro carteiras cujo perfil vai do conservador, com 15% em ações, ao agressivo, com 60%, passando pelo moderado e pelo arrojado. A previsão de retorno da carteira mais conservadora (80% em renda fixa, 15% em bolsa e 5% em investimentos alternativos) é de 4% ao ano em 12 meses. Já o mais agressivo, com 60% em ações, tem previsão de retorno de 8% ao ano em 12 meses.